Clima extremo: seca faz produtor perder soja em MT; no RS, chuva impede plantio

Em 40 anos, isso nunca aconteceu“, diz o agricultor Sadi Beledelli, ao observar um talhão de 700 hectares de soja plantada há 70 dias em Sorriso, no médio-norte do Mato Grosso. Sem chuva há 33 dias, as plantas perderam quase todas as folhas. “A soja cresceu, se desenvolveu, floresceu, mas não vai formar o grão porque faltou chuva para o enchimento.”

Em pelo menos 200 hectares do talhão, a perda será total. No restante, que ainda não perdeu todas as folhas, a esperança é conseguir colher de 5 a 10 sacas por hectare.

Já em Ipiranga do Sul, no Rio Grande do Sul, o excesso de chuvas deixa o produtor Elsio Dall Agnol de braços cruzados, rezando por dias de sol para iniciar o plantio de sua lavoura de 20 hectares de soja.

Está tudo inundado. São necessários pelo menos dois dias de sol para poder entrar na área com as máquinas. Com cinco dias de sol daria para semear quase tudo trabalhando também à noite, mas alguns talhões mais inundados vão ficar sem plantio porque precisam de uns 30 dias de sol.”

 

Estiagem severa no MT

O gaúcho Beledelli trocou o Rio Grande do Sul pelo Mato Grosso há 40 anos. “Nunca passamos por uma estiagem tão severa. Teve dia de onda de calor que fez 42 graus. Acredito que já perdemos 30% da soja e, se ficar mais dez dias sem chuva, perde 50%.

O produtor de Sorriso, que cultiva 6.500 hectares de soja, iniciou o plantio dois dias depois do fim do vazio sanitário, no dia 17 de setembro, aproveitando o bom volume de chuvas. Terminou em 16 de outubro com boas expectativas. Mas não viu mais chuva na propriedade. Só garoa, embora em outras fazendas do município tenha chovido bem na semana passada, em torno de 200 milímetros.

“Pelo menos 30% da minha lavoura está em uma condição muito ruim, de 30% a 40% em estado regular e os 20% restantes devem ter uma queda apenas de 20% se chover em 2 ou 3 dias”, diz Beledelli, que não vai fazer replantio.

Com uma produtividade média de 65 sacas por hectare, o agricultor esperava colher cinco sacas a mais nesta safra. Agora, vai passar a máquina para ver o que dá para salvar no talhão mais prejudicado e plantar milho na sequência.

“Ainda bem que não fechei muitas vendas futuras como em anos anteriores. O preço da soja caiu bem e isso implica em uma relação de troca desvantajosa para o produtor. No ano passado, vendi mais de 50% antecipadamente, mas neste ano não chegou a 35%.”

Segundo ele, que, além de produtor, é presidente do Sindicato Rural de Sorriso, sua situação não é única. A média no município é de 30% das lavouras de soja com problemas graves, 20% com alguns problemas e 40% sem problemas.

“Esta safra vai ter vários tipos de produtores em Sorriso: vai ter quem colhe bem, outros com safra regular e outros que vão ter negociar com seus credores.”

Na terça, dia 28/11, houve uma reunião no sindicato com representantes da prefeitura para expor a situação dos sojicultores atingidos pela seca. A expectativa é de que o município decrete estado de emergência pelas futuras perdas.

Sorriso, maior produtor de soja do mundo, lidera o ranking de municípios com maior valor de produção agrícola do país, com R$ 11,5 bilhões em 2022, sendo R$ 5,8 bilhões da soja. A área irrigada é de apenas 5%.

Segundo boletim do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), a semeadura da soja para a safra 2023/24 em Mato Grosso alcançou 98,39% das áreas previstas até 24 de novembro, mas o clima quente e os longos períodos sem chuvas em vários municípios do Estado têm impactado o desenvolvimento das lavouras e, em alguns talhões, já é observado o encurtamento do ciclo, o que pode prejudicar o potencial produtivo da planta.

Além disso, o levantamento do Imea projeta que 4,19% dos 12,22 milhões de hectares previstos para a soja teriam que ser replantados, mas alguns produtores, devido aos custos adicionais, podem optar por destinar parte da área para o cultivo de algodão.

Inundação no RS

Onde não falta chuva agora é em Ipiranga do Sul, que ostenta o título estadual de Berço do Plantio Direto, na região do Alto Uruguai gaúcho.

Estamos passando por maus momentos. A seca na safra de verão (2022/23) levou de 50% a 60% da produção. Acabamos de colher uma das piores safras de trigo dos últimos anos em volume e qualidade e agora não conseguimos plantar soja por causa da chuva”, lamenta Dall Agnol, que acumula a lavoura com o trabalho no aviário de corte para “pagar as contas”.

Ele conta que deveria ter iniciado o plantio da soja no final de outubro, mas só conseguiu colher o trigo há poucos dias, mesma situação dos demais agricultores da sua região. Na comparação com o ano passado, 100% da soja da região já estaria plantada. No entanto, atualmente só 15% da área foi semeada.

“O prazo está se esgotando porque o tempo bom de plantio já passou. Acredito que ainda vou conseguir plantar algo em dezembro, mas a cada dia vou somando as perdas”, diz o produtor que colhe, em média, de 70 a 80 sacos por hectare. No ano passado, só conseguiu a metade e, agora, estima que, se conseguir plantar, poderá no máximo chegar a 50 sacos por hectare.

Por Eliane Silva — Ribeirão Preto (SP) – Globo  Rural

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